Há algo de estranhamente familiar na imagem que Gabriel Torggler escolhe repetir ao longo desta instalação intitulada Estampa. Distribuídas linearmente pelas paredes do espaço-vitrine, cerca de trinta pinturas da série Ventiladores, todas de dimensões idênticas, apresentam obstinadamente o mesmo motivo: os contornos de uma hélice de quatro pás convertidos em signo, emblema ou fantasma gráfico. O que muda de uma tela para outra é a combinação cromática, em que cada pintura experimenta diferentes relações entre densidade e transparência, vibração e inércia, saturação e rebaixamento, aquecimento e esfriamento.
Os fundos são construídos pela sobreposição de camadas de tinta automotiva em movimentos breves e paralelos de aerógrafo, formando atmosferas nebulosas ou ondulantes. Sobre elas, a hélice emerge pela acumulação de seu negativo: quatro línguas de cor que se estreitam da periferia em direção ao centro, com coberturas mais espessas e táteis de bastão e tinta a óleo. O resultado é uma imagem simultaneamente precisa e evasiva, mecânica e ainda atravessada por certa gestualidade orgânica.
No mesmo dia em que me chegam notícias de Londres 40 graus, da discussão em torno da necessidade de aparelhos de ar condicionado na Europa, encontro esse conjunto de ventiladores oscilantes no ateliê de Gabriel. Começo a pensar em como esse dispositivo se fundiu silenciosamente à paisagem tropical. Objeto doméstico, tecnologia modesta e frequentemente improvisada, o ventilador se infiltrou nos cenários brasileiros girando em salas de aula, consultórios, quartos e escritórios, acompanhando uma forma particular de habitar o clima e de negociar com ele.
Nos últimos anos, o filósofo Timothy Morton tem descrito o aquecimento global como um "hiperobjeto": um fenômeno cuja escala temporal e espacial é tão vasta que escapa à percepção humana direta. Algo que está em toda parte ao mesmo tempo que nunca se apresenta inteiramente diante de nós. Perceptível apenas por meio de seus efeitos localizados: uma enchente, uma seca prolongada, um inverno anormalmente quente, a necessidade crescente de ventiladores e aparelhos de ar-condicionado.
Nesse sentido, vejo a série Ventiladores do Torggler como reflexo visual desses vestígios domésticos ou próteses cotidianas do hiperobjeto planetário que é a crise climática. Um índice da presença difusa e permanente do aquecimento global em nossas vidas. Nesta instalação, o ventilador tão íntimo e banal, pela repetição obsessiva da forma e pela variação contínua das cores, transforma a familiaridade em inquietação atmosférica.
Se, para o Morton, esses hiperobjetos são viscosos e aderem às coisas e aos corpos em todas as escalas da experiência, sem jamais se deixarem localizar completamente em um único ponto, como entidades distribuídas perceptíveis somente através de fragmentos e manifestações parciais; nesta Estampa a imagem serial dos ventiladores (uma promessa de alívio adaptativo, mas também um sintoma da experiência limite) se recusa a ser totalizante, porque o trabalho encontra seu efeito na multiplicação de suas diferenças, na circulação do olhar entre as telas, na percepção das pequenas mutações cromáticas (e térmicas!) que atravessam a repetição da forma, nas oscilações de variadas intensidades entre camadas de tinta.
Habitando com tranquilidade um universo visual no qual figuração e abstração deixaram de constituir campos opostos, a hélice é ao mesmo tempo objeto reconhecível e pura organização formal, representação e padrão ornamental. Tudo pode ser apenas cor e relação cromática, como em um laboratório de impressão têxtil ou um estúdio de design de moda. Mas tudo pode também voltar a ser simbólico e narrativo.
Diferentemente do ar-condicionado tão associado ao imaginário moderno do controle ambiental e da produção de um clima privado, isolado do exterior, o ventilador permanece ligado a uma ética da convivência com as condições do mundo. A imagem das hélices de Gabriel Torggler gira assim num intervalo entre decoração e presságio. Ainda que muito movediça e distante de ser uma alegoria da crise climática, projeta uma euforia inquietante característica do presente: nós mesmos diante do ventilador, sentindo as ondulações do calor e reconhecendo nossa dependência das infraestruturas materiais e ecológicas que tornam a vida possível, de um maquinário capaz apenas de negociar localmente com o problema, criando pequenas e provisórias zonas de habitabilidade.
Tálisson Melo